A música brasileira é feita de encontros entre ritmos, histórias e pessoas que transformaram sua arte em espelho da identidade nacional. Entre esses nomes, Ney Matogrosso e Jorge Ben Jor ocupam lugares únicos. Cada um, à sua maneira, desafiou o tempo e o que se esperava de um artista brasileiro. Hoje, suas trajetórias se entrelaçam na memória coletiva do país, como símbolos de liberdade, criatividade e autenticidade.
Ney Matogrosso: a arte como expressão de ser

Nascido em Bela Vista (MS), em 1º de agosto de 1941, Ney de Souza Pereira cresceu em uma família de militares e viveu boa parte da infância mudando de cidade. Antes da fama, trabalhou como laboratorista e até serviu na Aeronáutica, mas foi na arte que encontrou sua verdadeira forma de expressão.
Em 1973, ao integrar o grupo Secos & Molhados, Ney se tornou uma das figuras mais marcantes da música brasileira. Com performance ousada, maquiagem intensa e figurinos inspirados no teatro e na contracultura, ele rompeu com os padrões de gênero e comportamento da época. O impacto foi imediato: o primeiro álbum do grupo vendeu mais de um milhão de cópias e trouxe canções como “Sangue Latino”, “O Vira” e “Rosa de Hiroshima”, que se tornaram clássicos
Após o fim da banda, Ney iniciou uma carreira solo que consolidou sua imagem como um dos artistas mais versáteis e provocadores do país. Misturando MPB, rock, samba e música latino-americana, ele construiu um repertório plural, interpretando desde Chico Buarque e Cazuza até canções de Elis Regina e Cartola.
Mais do que um cantor, Ney é um intérprete da liberdade. Sua presença de palco, a forma como utiliza o corpo e a voz, e a coragem de falar sobre temas como sexualidade e identidade fazem dele uma referência artística e cultural até hoje. Aos mais de 80 anos, segue em turnês, gravando discos e inspirando novas gerações com a mesma energia de quem nunca precisou pedir permissão para ser quem é.
Jorge Ben Jor: o som que virou identidade

Jorge Duílio Lima Meneses, mais conhecido como Jorge Ben Jor, nasceu no Rio de Janeiro em 22 de março de 1942. Criado no bairro do Rio Comprido, cresceu ouvindo samba, bossa nova e os sons que vinham das ruas e das rádios. Desde cedo, mostrou interesse pela música e começou a tocar violão ainda adolescente.
Sua estreia profissional aconteceu em 1963, com o álbum “Samba Esquema Novo”, que apresentou o sucesso “Mas, que Nada!”, uma das músicas brasileiras mais reconhecidas internacionalmente. O estilo de Jorge misturava elementos do samba, do jazz, do rock e da música africana, criando uma batida inédita e contagiante, que mais tarde seria conhecida como samba-rock.
Durante as décadas de 1960 e 1970, Jorge Ben Jor se tornou um dos nomes centrais da MPB, lançando álbuns icônicos como “África Brasil” (1976), “A Tábua de Esmeralda” (1974) e “Solta o Pavão” (1975). Em suas letras, explorou temas ligados à espiritualidade, à ancestralidade africana e à celebração da cultura brasileira.
Canções como “País Tropical”, “Chove Chuva”, “Taj Mahal” e “Que Maravilha” atravessaram gerações e continuam presentes em festas, carnavais e playlists até hoje. O músico também influenciou diretamente artistas de diferentes estilos — de Caetano Veloso a Manu Chao —, além de ter sido amplamente sampleado por nomes internacionais.
O nome artístico “Jorge Ben Jor” surgiu apenas nos anos 1980, quando o cantor decidiu alterar o “Ben” para “Ben Jor” por questões legais e numerológicas. Desde então, continuou inovando, mantendo sua sonoridade inconfundível e seu carisma como marca registrada.
Estilo, estética e influência cultural

A influência de Ney Matogrosso e Jorge Ben Jor ultrapassa o som. Ambos ajudaram a moldar o imaginário visual e estético da música brasileira, tornando-se ícones também da moda e do comportamento.
Ney sempre enxergou o palco como uma extensão do seu discurso. Suas roupas, muitas vezes inspiradas em elementos indígenas, andrógenos e teatrais, criaram uma linguagem própria que inspirou gerações de artistas e estilistas. Sua estética mistura sensualidade, liberdade e arte, questionando o que é masculino e o que é feminino e transformando o corpo em território político e poético.
Jorge Ben Jor, por sua vez, representou o estilo tropical e urbano do Brasil. Camisas estampadas, calças brancas, óculos escuros e um violão nas mãos: sua imagem é sinônimo de leveza e brasilidade. Jorge incorporou a alegria do samba e a atitude do soul, traduzindo em visual aquilo que sua música já dizia: um Brasil solar, criativo e cheio de ritmo.
Dois artistas, um mesmo Brasil

Embora sigam trajetórias diferentes, Ney Matogrosso e Jorge Ben Jor compartilham um mesmo espírito: o de um Brasil que se expressa através da arte e da liberdade.
Enquanto Ney rompeu fronteiras estéticas e comportamentais, Jorge reinventou o ritmo e a linguagem da música popular. Ambos representam o encontro entre a tradição e o novo, entre o que somos e o que ainda podemos ser.
Mais do que artistas, são cronistas de um país em movimento, que canta sua própria história através de sons, cores e gestos.
E é nesse encontro simbólico entre Ney e Jorge que a Origem se inspira: no Brasil que não tem medo de se mostrar, de misturar e de ser.
