A música do Brasil nasceu dos encontros entre cidades, sotaques, ritmos e pessoas que enxergavam na arte um jeito de traduzir o país. Entre esses nomes, Alceu Valença e Ary Barroso seguem vivos na memória coletiva, cada um retratando o Brasil à sua maneira. Um canta o sertão, o mar e o corpo que dança. O outro pincelou o país com melodia, transformando o som em imagem. Juntos, lembram que o Brasil sempre soa como ele mesmo, diverso, colorido e cheio de alma.
Alceu Valença: poesia, mar e sertão em forma de canção

Alceu Paiva Valença nasceu em 1946, em São Bento do Una, no interior de Pernambuco. Cresceu entre vaquejadas, paisagens secas, histórias populares e festas de rua, cenário que lhe deu matéria-prima para criar uma obra que parece cheirar ao Brasil. Ainda jovem, mudou-se para Recife e começou a circular pelos movimentos culturais da época, mas sem nunca abandonar suas raízes.
Sua carreira ganhou força nos anos 1970, quando seu estilo chegou às rádios misturando frevo, maracatu, rock, MPB e poesia nordestina. Alceu sempre foi uma figura livre: voz inconfundível, visual marcante e letras que desafiam qualquer limite entre o real e o imaginário.
Entre suas canções mais conhecidas está La Belle de Jour, uma história que começa no calçadão da Praia de Boa Viagem, no Recife, e se transforma em memória afetiva de milhões de brasileiros. A música é uma cena de verão azul, apaixonada, calorosa e eternizada pelos versos:
“Eu lembro da moça bonita da praia de Boa Viagem…”
A letra traz o mesmo brilho que acompanha boa parte de sua obra: sol, carinho, leveza e uma brasilidade que ninguém consegue copiar.
Já em Flor de Tangerina, lançada em 1975, Alceu mergulha no romantismo popular e sensorial. Ele compõe como quem descreve um sonho:
“Hoje eu sonhei que ela voltava…
Cheirando a flor de tangerina.”
Amor, perfume, lembrança e paisagem viram uma coisa só. Essa é a magia de Alceu: suas músicas parecem ter cor, cheiro, clima e temperatura.
Ary Barroso: o homem que colocou o Brasil no mapa mundial

Antes de Alceu cantar o vento do Nordeste, Ary Barroso já vinha moldando o som nacional com outro tipo de poesia. Nascido em Ubá, Minas Gerais, em 1903, Ary foi pianista, compositor, apresentador, comentarista esportivo e um dos maiores nomes da música brasileira do século XX.
Seu legado é incontornável. Em 1939, ele lançou Aquarela do Brasil, interpretada por Francisco Alves, uma música que atravessou fronteiras e se tornou uma das mais importantes da história do país. Ela levou o Brasil para telonas, rádios, palcos internacionais e virou símbolo de uma identidade que começava a se afirmar para o mundo.
“Brasil, samba que dá, bamboleio que faz gingar…”
Ao longo das décadas, grandes nomes gravaram a obra, como Gal Costa, João Gilberto e Elis Regina. A música ganhou tantas interpretações que virou quase patrimônio nacional.
Ary fez da canção um retrato do país. Suas letras são como telas onde cabem festa, ritmo, povo, natureza, costume e esperança. Entre sambas, marchinhas e obras sinfônicas, ele ajudou a construir a trilha sonora de um Brasil que aprendia a se mostrar.
Dois artistas, um mesmo país

Alceu Valença e Ary Barroso vieram de épocas diferentes, viveram realidades distintas e construíram trajetórias únicas. Mas os dois foram responsáveis por algo essencial: transformar o Brasil em música.
Na Origem, essa herança musical não fica apenas na memória, ela vira estampa, conceito e produto. Alceu inspira uma das peças da coleção dedicada ao Nordeste, trazendo para o design a mesma mistura de mar, sol, poesia e calor humano presente em suas canções. Já Ary Barroso influencia uma camiseta que homenageia a identidade nacional em sua forma mais clássica, transformando versos que já fazem parte da história do país em mensagem visual. Dois artistas, dois tempos, mas a mesma proposta: vestir o Brasil como ele é.
Um canta o cheiro da tangerina, o sol da praia, a saudade do sertão que insiste em florescer. O outro pinta o país como se cada nota fosse uma pincelada, revelando um Brasil vivo, vibrante, cheio de ritmo e cor.
Entre eles existe um elo simples e profundo:
A música como expressão da alma brasileira.
O Brasil que canta sua história.
Que sente, que dança, que se emociona.
Que se mostra como é.
Da poética de Alceu à grandiosidade de Ary, o que nos une é o som: o som da terra, do povo e da memória que atravessa gerações.
